quarta-feira, 13 de junho de 2012

O livre mercado precisa mesmo de atores racionais?

URL: http://www.ordemlivre.org/2012/06/o-livre-mercado-precisa-mesmo-de-atores-racionais/


Duas viagens recentes de avião me deram a oportunidade de ler Predictably Irracional, de Dan Ariely. Publicado em 2008, o livro de Ariely dá um tratamento popular ao crescente campo da "economia comportamental". Essa área combina economia e psicologia (e às vezes neurociência) para tentar compreender se as pessoas se comportam da forma que o modelo econômico do ator racional diz que se comportarão, e caso não se comportam assim, por que não. Economistas comportamentais utilizam métodos experimentais para verificar como as pessoas reagirão às várias situações onde há múltiplas escolhas disponíveis e verificam se elas escolheram a opção maximizadora – a opção que, segundo o modelo econômico padrão, elas deveriam escolher.

Os resultados, resume o livro de Ariely, são claros: as pessoas agem "irracionalmente", no sentido de que não escolhem a opção maximizadora de utilidade (isto é, a maximizadora financeiramente) o tempo todo. (É claro que essa noção de racionalidade é muito mais rígida do que a ideia miseana de racionalidade como sendo a escolha dos meios apropriados para um fim desejado.) Porém, como seu título sugere, a evidência experimental também esclarece que essas irracionalidades não são casuais, mas previsíveis. Nossos processos racionais estão sujeitos a uma variedade de inclinações inatas que nos levam a desviar do modelo do ator racional. Ariely não discute muito as fontes dessas inclinações, mas a literatura sobre cognição indica que elas podem ser características da mesma estrutura dos nossos cérebros que refletem o longo caminho evolucionário que criou os humanos modernos.

 

Aversão às perdas

Por exemplo, uma das inclinações que nós temos é a "aversão às perdas". Nós tememos perder uma coisa mais do que valorizamos ganhar outra. Postos diante de duas apostas onde uma tem um ganho um pouco maior, mas também riscos de perdas maiores, as pessoas escolherão aquela com menor ganho e menor risco de perda. Essa aversão às perdas pode ser resultante da evolução, onde evitar riscos era mais importante do que a melhora das próprias condições.

Qualquer seja a origem dessas "irracionalidades previsíveis", fortes evidências apontam para a sua existência. Elas importam porque nas mãos de alguns, elas se transformam em um argumento pela limitação do de escolha das pessoas ou pelo menos pela utilização do poder governamental para estruturar escolhas de uma forma que irá, argumentam, reduzir essas inclinações e nos levar a escolhas "melhores". Para alguns economistas comportamentais, a irracionalidade e a sua previsibilidade minam o argumento em favor do livre mercado.

Mas será que as coisas precisam ser assim? Será que o argumento em favor do livre mercado depende tanto assim da racionalidade humana?

Existem dois tipos de respostas que os defensores do livre mercado podem dar a essa irracionalidade aparente. Primeiro, nós podemos perguntar se a defesa do mercado realmente é baseada na racionalidade de atores individuais. Infelizmente, muitas abordagens do mainstream da economia sugerem que esse seria o caso, e é isso que leva alguns economistas comportamentais a pensar que a irracionalidade previsível enfraquece o mercado. Entretanto, outros economistas, inclusive os da Escola Austríaca, não esperam que os atores sejam estritamente racionais para pensarem que os mercados são bons.

 

Racionalidade ecológica

O que os Austríacos e seus fellow travellers argumentam é que a racionalidade dos participantes do mercado não é o que importa, mas sim o contexto institucional em que agem. Em outras palavras, a racionalidade não é uma característica os indivíduos que escolhem, mas dos mercados como um todo. Mesmo que as pessoas cometam "erros" ao não agirem da forma que o modelo estrito sugere, elas receberão feedback do mercado competitivo e esse feedback mostrará os seus erros e as dará incentivos e conhecimento para corrigi-los. Aqueles que conseguem reconhecer suas predisposições e corrigi-las se darão melhor do que aqueles que não conseguem, e o mercado nos dá a possibilidade de fazer isso quando são verdadeiramente livres e competitivos. É o que Vernon Smith, vencedor do Prêmio Nobel, chama de "racionalidade ecológica". Mesmo que os indivíduos sejam irracionais, o sistema como um todo produz resultados racionais.

A defesa do mercado não se baseia em pessoas fazendo escolhas perfeitamente racionais. A questão é comparativa: sob quais conjuntos de instituições as pessoas aprenderão e terão incentivos para corrigir os erros que inevitavelmente cometerão? O padrão não é perfeição; é aprendizado.

 

Reguladores racionais?

Mas existe um segundo problema com a argumentação da economia comportamental contra os mercados. Ocasionalmente, Ariely aponta como essa ou aquela política governamental pode nos ajudar a lidar com nossas inclinações nas tomadas de decisão. Essa indicação não aparece muito, mas está bem presente. O que é interessante, porém, é que ele nunca se pergunta se os atores políticos também serão afetados pelas mesmas inclinações!  Ele parece presumir que o pessoal do governo é capaz de produzir políticas ideais para lidar com a irracionalidade previsível. Mas se as inclinações são humanas, então por que confiarmos nos políticos para as respondam racionalmente? Então, a questão volta a ser aquela que compara o potencial para aprendizado em diferentes configurações institucionais.

Vale a pena notarmos também que Ariely tem o hábito de explicar problemas "americanos" ao se referir a essas inclinações. Contudo, se as inclinações são humanas, então por que os americanos seriam particularmente propensos a elas? Talvez o problema esteja nas políticas e não nas inclinações. Más políticas, como vimos na explosão da bolha imobiliária, pode criar incentivos e bloquear o conhecimento, nos levando a decisões irracionais.

Os humanos serão sempre imperfeitos e jamais serão totalmente racionais, o que é precisamente a razão pela qual não devemos confiar em nenhum humano para comandar a vida dos outros.

 

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