quarta-feira, 25 de julho de 2012

Chega de tanta proteção!

URL: http://www.ordemlivre.org/2012/07/chega-de-tanta-protecao/


Casas assaltadas, arrastão em prédios e restaurantes, cidadãos assassinados, médico bate carteira de cliente durante consulta, MST derruba laranjais produtivos, policiais militares abandonam vítima moribunda e roubam seus bens.

Não vou cansá-lo, leitor, com listas. Estamos desprotegidos? De maneira alguma! Estamos protegidíssimos, contra o que não queremos, nem precisamos.

A ANVISA está a caminho de proteger-nos contra todos os remédios. Todos ficarão fora de nosso alcance. Teremos que pedir orientação ao(à) famacêutico(a):  Vivam a empurroterapia e mais empregos inúteis de farmacêuticos. Para os clientes, adeus Doril, Gelol e Engov. Só compraremos o que o farmacêutico(a) deixar. Ainda não será necessário RG para comprar estes remédios, mas você não perde por esperar.

Professores de jardim da infância terão que ter curso universitário. Coitadas das crianças e escolas que querem oferecer bons jardins de infância, por preços que os brasileiros podem pagar. Faculdades brotarão do chão (e não serão destruídas pelo MST, espero) para treinar profissionais desnecessários, para os quais não há uma demanda exceto pela bizarrice dos senhores parlamentares, que podem fazer qualquer loucura ou determinar-nos qualquer obrigação. Com uma agravante: ela vira lei. Esquecem-se que é melhor alguma educação do que nenhuma educação.

Quando vestiu uma cueca no saguão do Senado, Eduardo Suplicy fez uma brincadeira inócua, comparada às sandices que seus colegas votam.

Mas não é só o governo. A eletronização da vida é rotina. Necessitamos inúmeros números (desculpe…): documentos, contas, senhas. Burocratas, civis e governamentais, vivem nos protegendo das ciladas dos agentes do mal. Vampiros eletrônicos em soturnos subsolos de bancos criam regras que proíbem 10-10-1919 de ser usado como senha porque é fácil de adivinhar. Que culpa tenho se a mãe da minha primeira namorada nasceu em 10-10-1919?

Companhias de aviação criam regras para facilitar o embarque dos portadores de necessidades especiais, mas não lhes oferecem um canal para usar a preferência a que tem direito. Sem canal, são forçados a ficar em pé no início da fila para defender-se dos bicões que passam à frente. Adeus necessidades especiais.

A melhor amiga de funcionários, públicos ou privados, chama-se Norma. Se você reclamar eles chamam logo a Norma. O sobrenome pode ser ANAC, ANVISA, ANATEL, ANA, ANCINE, ANEEL, ANP, ABNT, ou qualquer sigla de sua preferência. Ela sempre proíbe o que é melhor para nós.

George Stigler, um senhor que deu aulas na Universidade de Chicago, descobriu que todas as agências regulatórias, quando são criadas, vestem-se com belas roupas de protetoras de alguma causa nobre como a segurança nacional, o bem comum, o social, o interesse público e todas estas vaguidões, que querem dizer tudo e como tudo o que quer dizer tudo, não quer dizer nada.

Rapidinho, conta-nos Stigler, os vilões viram amigos dos burocratas das agências que tinham obrigação de controlar e regular, apropriam-se dos processos decisórios e conseguem que as agências tomem decisões a favor deles e não dos consumidores. Isto vale para o mundo inteiro. Em tempo, Stigler ganhou um prêmio Nobel de economia por causa disso.

Proteger-nos contra o que realmente necessitamos e queremos ser protegidos custa caro e dá muito trabalho. Burocracias e suas amigas, Normas, não estão nem aí para isso. Preferem proteger-nos contra tolices ingênuas: são fáceis de ser votadas no Congresso e mais fáceis ainda de serem batizadas como Normas.

Uma das mais recentes é a sua tomada elétrica, ilustre cidadão. Os çábios (obrigado Elio Gaspari) da ABNT desenharam uma tomada elétrica que só existirá no Brasil e o protegerá contra os choques elétricos que eles acham que você, cidadão idiota, toma todos os dias, pelo menos três vezes por dia.

Já proibiram todas as tomadas que você tem. As lojas só vendem fêmeas e machos deste modelo e todos os eletrodomésticos que você comprou com o crédito fácil, criado com as sensatas políticas do Henrique Meirelles  (o amigo dos pobres) no Banco Central, precisam de um adaptador. Deve ser produzido por uma empresa que, certamente, tem financiamento do BNDES, com o seu dinheirinho.

Sabe essa tomadinha de telefone de plástico pequenina que seu computador ou seu telefone usam. Não estou falando daquele monstrengo de 4 pinos, um em cada direção, que parece um quebra-cabeças. O monstrengo foi inventado pelo monopólio estatal de telecomunicações  (Telebrás) para proteger o Brasil contra a tentativa norte-americana de dominar o mundo através da tomadinha pequenina, que se chama RJ-11.

Se você é amigo do meio ambiente dê-se à pachorra de pesar as duas tomadas: a brasileira pesa 23 vezes mais do que a RJ-11. Tudo contra o aquecimento global.

Nem o Brasil acabou com a saúva, nem esta acabou com aquele. Neste ambiente regulatório continuaremos a ser vitimizados pelos grandes crimes, porque dá muito trabalho combatê-los.

Uma sugestão: sempre que você reclamar com algum agente do governo, de uma empresa monopolista ou oligopolista, anote o número de protocolo que lhe derem, vá até à próxima esquina e aposte-o na Mega Sena.

Se ganhar, ficará rico em bens privados, mas não se anime pensando que você estará livre dos crimes sérios contra a sua pessoa ou a sua propriedade. Você continuará um pobretão em bens públicos, porque resolver problemas como a segurança pública, a educação, a saúde e a infraestrutura dá muito trabalho.

Como disse um policial a um repórter que lhe perguntou por que as blitzes eram feitas sempre nos mesmos dias, nos mesmos lugares e nos mesmos horários, o espantado agente da lei respondeu: Ora…porque sempre foi feito assim.

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