URL: http://gabinetesoninha.blogspot.com/2009/11/itabera-2.html
Hj os jornais comentaram a declaração do ministro Edison Lobão (ex-Arena e PDS, ex-PFL e DEM, atual PMDB) atribunindo o apagão à tempestade elétrica em Itaberá, sul de São Paulo. As moças do tempo concordaram que ali, sim, houve chuva forte, vendaval, raios.
Mas foi isso mesmo que causou o apagão??
No Bom Dia Brasil, o diretor do Operador Nacional do Sistema, Eduardo Barata, disse que "é possível, sim, que as condições climáticas adversas naquela região tenham sido causadoras de curto-circuitos". É "possível"! "Se foi uma descarga atmosférica que causou, isso não foi posicionado com certeza em nenhum momento. A origem desse curto pode ter sido das descargas, ventos que provocam o balanço da cadeia de isoladores e a chuva, que faz com que isolaradores se tornem condutores". Mas o ministro não teve dúvida, disse "foi um raio" e pronto!
Digamos que tenha sido. Afinal, "é possível". Perguntas:
1) Se os registros da ONS apontam claramente que houve um curto naquela linha de transmissão, por que demorou tanto tempo para que essa informação fosse conhecida? (Durante o Apagão, as autoridades só diziam "estamos tentando descobrir o que aconteceu").
2) Tendo havido o curto, o que foi feito para saná-lo? O que precisou ser substituído ou reparado?
3) O diretor da ONS diz que o sistema funcionou muito bem. Se as outras linhas de transmissão não tivessem sido todas desarmadas após a ocorrência do curto, teria havido danos graves a todo o sistema.
Peraê. Um sistema de segurança deve estar estruturado exatamente para evitar que o todo seja atingido quando há um problema com uma das partes. Se dá curto no chuveiro, queima o fusível/cai o disjuntor correspondente. Em casos de maior impacto, cai a "chave geral" - da sua casa, não do bairro todo, muito menos da cidade. O sistema tem suas cancelas, suas barreiras.
Se houve um curto nas três linhas de transmissão, é mais do que compreensível que elas caiam. Mas se todas as outras caíram também, é porque o isolamento de uma para outra não é adequado. Se toda vez que cair um raio em São Paulo (e o ministro diz que ali "tem muito raio", fica o Paraguai sem luz??
***
Ontem, na Ana Maria Braga (é, eu vi um pedaço...), um especialista em infraestrutura (não consigo achar o nome dele) deu uma entrevista muito boa, crítica e sóbria, sobre nossa bendita infra. Explicou essa história de sistema interligado, que faz com que todas as pontas da rede sejam muito dependentes umas das outras. "Qdo você recebe energia na sua casa, pode estar vindo do Sul, do Centro-Oeste, do Norte... E se ocorre um problema em algum ponto da rede, ela é toda afetada.
Mais do que isso, há um problema de concepção. O governo está investindo em outras mega usinas na Amazônia. Para a energia gerada lá chegar ao resto do país, são milhares de quilômetros de linhas de transmissão. Por melhores que sejam os cuidados, ela está exposta a um sem-número de problemas - acidentes, atentados, sabotagens.
***
Senti falta de entrevistarem a Marina Silva sobre isso. Os ambientalistas sempre ficaram de cabelo em pé com essas novas usinas (Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira), por várias razões. 1) Os estudos de impacto ambiental, hiper discutíveis (lembram do discurso do Lula sobre o "bagre" que atrapalhava o progresso? A condução do governo foi nessa linha - "não me venham com essas baboseiras de meio ambiente, o Brasil precisa crescer"); 2) O custo; 3) A existência de alternativas muito melhores.
Na época, o licenciamento das usinas foi considerado (mais) uma derrota da ministra do meio ambiente (achei um texto muito bom sobre isso aqui.
Em um evento em São Paulo (Seminário Produção Mais Limpa, organizado pelo vereador Natalini no Memorial da América Latina em 2008), alguns técnicos apresentaram um cálculo demonstrando que a economia que seria proporcionada pela substituição de chuveiros elétricos por aquecimento solar nos grandes centros equivaleria aos megawatts de energia a serem gerados pela futura Usina de Jirau...
Ou seja, temos IMENSAS possibilidades de depender menos de energia hidrelétrica - o que resultaria em menos custos, obras de menos impacto, menor necessidades das tais linhas megaquilométricas de transmissão. Mas os ambientalistas são sempre os chatos de plantão, que tem má-vontade e só querem atrapalhar o governo e os negócios.
E aí, vão entrevistar a Marina ou não vão? (Se alguém já entrevistou, desculpem, não vi).
Nenhum comentário:
Postar um comentário